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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

NAVE AZUL

Raimunda



O mundo gira independente de mim.

A Terra redondeia duplamente e ignora-me.

Eu estática no meu conhecer.

Eu pequena no meu não-saber, encolhida...

ELA passeia ao redor do Sol: esquenta-se, esfria-se.

Cumpre um terrestre ritual: azula-se, prateia-se, doura-se, acinzenta-se...

Esnoba figurinos. Sua órbita é sua bússola.

Nave esférica: menina, moça, mulher.

Carrega em seus passeios o nosso viver; o meu não-viver.

Arrasta no seu magnetismo nossos sonhos, nossas dores...

Enquanto penso, enquanto durmo,

Ela vagueia, indiferente: tufões, furacões, terremotos...

Nada impede seus passeios.

Ela é bem mais ela.

Embalada em seus siderais, dança música hibernal.

Primavera em seus dias, suas tardes, suas noites. Só ela: nave redonda, azul, verde, colorida...íris.

Reduto de muitas vidas,

Mãe de muitas mortes...natural.

Ela vive: vida diferente.

Queria ter vida igual



Maio/2003

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Morte do Soneto

MORTE DO SONETO



                                  Raimunda

Forma fixa, prisioneira de caprichos

Em ti a arte se reduz

Não mais que dez mais quatro

Para encerrar sombra e luz



Linhas decassílabas e pronto!

O sentimento em número se transforma

Tens que caber nessa seqüência

Pois obedeces a uma fixa forma



És clássica, estás no passado

Com o ourives que te torna

Uma jóia declarada



Em ânsia de fechar-se em quatro

Nos limites da forma estagnada

Morre o soneto...sufocado.



Junho/ 2005

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Antítese do vaso Grego

Raimunda


Lá em Maragogipinho,

Perto do mar,

Juntinho ao manguezal,

Um bando de gente

A laborar:

Panelas, jarros, burrinhos,

Castiçal, porta-moeda.

Muitos vasos de barro

Escuros, sujos, suados...

Tomam forma nos pés,

Sofrem o atrito das mãos

Calosas, humildes, humanas [...]

Tornam-se vasos do Recôncavo

Artesanais, caxixis: vasos.

Úteis ou não:

Vasos.

(Este poema é parte do livro Rio de Letras de autores Valencianos.)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Livro

Amanhã, dia 09/04/2010, será lançado o livro Rio de Letras, escrito por vários autores valencianos. Será no Centro de Cultura, às 19:00h.
Faço parte dessa publicação na modalidade poesia. É minha estreia no mundo dos escritores. Espero publicar um individualmente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ardilosa Concha

Raimunda Almeida


Minha alma fechou-se em ardilosa concha,
Isolou-se em oceano, fraca e desnuda,
Afastou-se do comando firme, divinal,
Tornou-se cega, surda e muda.

Definhou em cabulosa reclusão,
Perdeu viveza e etéreo esplendor.
Nem vagar pode, pois estava presa
A uma tormentosa existência sem amor.

Mesmo enfraquecida, constatou a tempo
Quanta falta o sublime lhe fazia.
Então abriu devagarzinho a concha
E ouviu uma voz que lhe dizia:

“Alma é luz grandiosa, é estandarte
Medianeiro, ostensivo, revelador
Que nos tira da condição irracional
E nos torna semelhante ao criador.”

Valença, 14 de outubro de 2009.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Meu Bebê

“Meu Bebê”
Maria Raimunda Almeida Silva
Professora da FAZAG

Bonecas são idealizadas, produzidas e compradas com o intuito de servirem de brinquedo a milhares e milhares de crianças. Por isso quando se pensa nelas, é habitual vir à tona (aflorar) sentimentos aprazíveis, puros, inocentes, relacionados a crianças, mais especificamente, a meninas.
É notório que bonecas são seres inanimados. Contudo, quando são adquiridas e presenteadas (passam a pertencer a alguém). Elas conquistam identidade e vida. Vida de boneca, não obstante, vida. Recebem carinho e, no âmbito da fantasia, também retribuem. Todavia as bonecas, apesar de todo cuidado e atenção que lhes são dispensados, quase sempre são descartadas. As formas são diversas: pelo processo caridoso de doação; pelo esquecimento em um baú qualquer; ou simplesmente são jogadas no lixo. Quando elas passam por esse processo de descarte, algumas razões precedem o ato. Pode-se estar diante de novas aquisições mais bonitas, mais modernas, mais eficientes; a dona cresceu e não se interessa mais por esses seres; e, em situações menos corriqueiras, a mãe, mergulhada numa inconsolável perda da filha, desfaz-se desses seres que provocam lembranças diluídas em lágrimas.
Pois é. Onde é mesmo que bonecas devem permanecer? Se pudesse, suspenderia a seqüência desse texto para que você, leitor, formulasse suas respostas. Pretensiosamente, posso tentar adivinhá-las, mas vou sugerir uma: no lixo. Isso mesmo! No lixo.
Bonecas recolhidas ao caminhão do lixo têm o fado comum a tudo que não é mais útil a alguém, algo imprestável: um lixão. Nesse lugar, pessoas costumam garimpar coisas que possam ser úteis ou para o próprio uso, ou para uma eventual venda. Nunca tive notícia ou conhecimento de que alguém “catasse” algo no lixo para expô-lo no próprio veículo de coleta. Perguntas? À vontade, leitor.
Pois assim foi. Certamente imatura ideia de algum funcionário da limpeza pública que, muito provavelmente, não tem filhos, ou melhor, filhas (hipótese). Três bonecas, do tipo “Meu Bebê” foram escolhidas para a peça. Estavam sem roupas, sujas, porém inteiras. Poderiam ter sido completamente recicladas, mas não foram. Ao invés, as duas tiveram um destino mais, muito mais do que esquisito. Excêntrico, estrambótico são termos que se amoldam mais à ocasião. Elas passaram a assumir um papel que não é apropriado a um brinquedo, muito menos a uma boneca que, simbolicamente, representa figura feminina. Como tal não deveriam estar naquelas posições onde se encontravam.
É muito provável que os autores da bisarrice não tenham tido a intenção de afrontar ninguém com o despropósito da exposição, mas o fato é que lá estavam as três bonecas. A primeira encontrava-se enganchada (como se estivesse sentada) na frente do caminhão de coleta do lixo urbano. Era algo semelhante a um carro abre-alas, reduzido à frente do caminhão. Desprovida de vestido, braços abertos, como a pedir um abraço que se perdeu com o seu abandono, lá se encontrava a boneca sem nome. O vento, provocado pelo deslocamento do carro, fazia com que ela oscilasse para lá, e para cá; pra trás e pra frente; era uma “boneca-criança” em extremo perigo, obrigada a fazer um “tour” inusitado pela cidade de Valença.
À segunda e terceira personagens, também retiradas do entulho, foram destinados lugares um grau acima do não usual: macabro mesmo. Elas estavam presas a uma corda, ou cordão (não dava para distinguir perfeitamente) e pendiam na parte superior, à direita e à esquerda da carroceria da caçamba. Eram idênticas à outra. Diria mesmo que eram tri gêmeas. Assemelhavam-se em tamanho, modelo, grau de conservação e destino. A corda presa ao pescoço frágil dos brinquedos e os movimentos bruscos e desconexos impunham às bonecas uma aparência de alguém que sofrera o processo de enforcamento e foi posto à exposição pública. Exposição ambulante, constrangedora, deplorável.
Triste saber que episódios como esses possam ocorrer sem causar nenhum impacto. No entanto, elas fizeram parte de uma cena de um teatro insólito, macabro, promovido e patrocinado pelos caminhões da limpeza pública de uma cidade cuja platéia (só para dar o tom de confirmação) se olhou, não viu; se viu, não esboçou reação: nem vaias, nem insultos, nem aplausos.
Mas quem era mesmo a plateia?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DIA DE CACHORRO MORTO


DIA DE CACHORRO MORTO

Maria Raimunda Almeida Silva*

Hoje, pela manhã, quando me dirigia ao trabalho, deparei-me com duas situações extremamente similares: dois animais mortos, sendo velados por crianças.
O primeiro animal era um cachorro de médio porte, de cor preta com traços de um vira-lata comum. Estava jogado junto ao meio-fio, semicoberto por um pano branco que não dava para saber se era uma toalha ou resto de qualquer tecido. Ali, naquele momento, era uma mortalha. Estava teso, meio de lado: morto. Junto ao corpo, alguma coisa parecida com sangue o qual já estava sendo disputado por formigas e moscas. Indiferentes aos insetos, três crianças, na parte superior do meio-fio, olhavam, curiosas, para o defunto. O semblante delas demonstrava um pouco de seriedade. Olhavam. Só olhavam. Provavelmente não se demorariam ali, visto que estavam, certamente, a caminho da escola, já que estavam fardadas.
Um pouco mais à frente (talvez uns duzentos metros), quando dobrei uma curva, percebi algo branco, meio volumoso, estendido no meio da rua. Foi só o tempo de desviar o carro, um pouco para a esquerda, para não esmagar o animal, que já se encontrava morto. Nessa edição do féretro, as crianças (cinco) estavam no passeio da casa mais próxima, olhando para o animal sem nenhuma tristeza aparente. A impressão que dava era de que elas não estavam satisfeitas somente com a morte do animal: eles queriam muito mais: o esmagamento. Num relance, tive quase a sensação de que o animal havia sido colocado ali para o sacrifício, pois quando o carro despontou na curva, houve uma movimentação da turminha, quase expectativa. O desvio do alvo provocou frustração.
Dois momentos, quase simultâneos, igualados pela morte; diferenciados pelos vivos!

* Professora da EMARC de Valença