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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ardilosa Concha

Raimunda Almeida


Minha alma fechou-se em ardilosa concha,
Isolou-se em oceano, fraca e desnuda,
Afastou-se do comando firme, divinal,
Tornou-se cega, surda e muda.

Definhou em cabulosa reclusão,
Perdeu viveza e etéreo esplendor.
Nem vagar pode, pois estava presa
A uma tormentosa existência sem amor.

Mesmo enfraquecida, constatou a tempo
Quanta falta o sublime lhe fazia.
Então abriu devagarzinho a concha
E ouviu uma voz que lhe dizia:

“Alma é luz grandiosa, é estandarte
Medianeiro, ostensivo, revelador
Que nos tira da condição irracional
E nos torna semelhante ao criador.”

Valença, 14 de outubro de 2009.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Meu Bebê

“Meu Bebê”
Maria Raimunda Almeida Silva
Professora da FAZAG

Bonecas são idealizadas, produzidas e compradas com o intuito de servirem de brinquedo a milhares e milhares de crianças. Por isso quando se pensa nelas, é habitual vir à tona (aflorar) sentimentos aprazíveis, puros, inocentes, relacionados a crianças, mais especificamente, a meninas.
É notório que bonecas são seres inanimados. Contudo, quando são adquiridas e presenteadas (passam a pertencer a alguém). Elas conquistam identidade e vida. Vida de boneca, não obstante, vida. Recebem carinho e, no âmbito da fantasia, também retribuem. Todavia as bonecas, apesar de todo cuidado e atenção que lhes são dispensados, quase sempre são descartadas. As formas são diversas: pelo processo caridoso de doação; pelo esquecimento em um baú qualquer; ou simplesmente são jogadas no lixo. Quando elas passam por esse processo de descarte, algumas razões precedem o ato. Pode-se estar diante de novas aquisições mais bonitas, mais modernas, mais eficientes; a dona cresceu e não se interessa mais por esses seres; e, em situações menos corriqueiras, a mãe, mergulhada numa inconsolável perda da filha, desfaz-se desses seres que provocam lembranças diluídas em lágrimas.
Pois é. Onde é mesmo que bonecas devem permanecer? Se pudesse, suspenderia a seqüência desse texto para que você, leitor, formulasse suas respostas. Pretensiosamente, posso tentar adivinhá-las, mas vou sugerir uma: no lixo. Isso mesmo! No lixo.
Bonecas recolhidas ao caminhão do lixo têm o fado comum a tudo que não é mais útil a alguém, algo imprestável: um lixão. Nesse lugar, pessoas costumam garimpar coisas que possam ser úteis ou para o próprio uso, ou para uma eventual venda. Nunca tive notícia ou conhecimento de que alguém “catasse” algo no lixo para expô-lo no próprio veículo de coleta. Perguntas? À vontade, leitor.
Pois assim foi. Certamente imatura ideia de algum funcionário da limpeza pública que, muito provavelmente, não tem filhos, ou melhor, filhas (hipótese). Três bonecas, do tipo “Meu Bebê” foram escolhidas para a peça. Estavam sem roupas, sujas, porém inteiras. Poderiam ter sido completamente recicladas, mas não foram. Ao invés, as duas tiveram um destino mais, muito mais do que esquisito. Excêntrico, estrambótico são termos que se amoldam mais à ocasião. Elas passaram a assumir um papel que não é apropriado a um brinquedo, muito menos a uma boneca que, simbolicamente, representa figura feminina. Como tal não deveriam estar naquelas posições onde se encontravam.
É muito provável que os autores da bisarrice não tenham tido a intenção de afrontar ninguém com o despropósito da exposição, mas o fato é que lá estavam as três bonecas. A primeira encontrava-se enganchada (como se estivesse sentada) na frente do caminhão de coleta do lixo urbano. Era algo semelhante a um carro abre-alas, reduzido à frente do caminhão. Desprovida de vestido, braços abertos, como a pedir um abraço que se perdeu com o seu abandono, lá se encontrava a boneca sem nome. O vento, provocado pelo deslocamento do carro, fazia com que ela oscilasse para lá, e para cá; pra trás e pra frente; era uma “boneca-criança” em extremo perigo, obrigada a fazer um “tour” inusitado pela cidade de Valença.
À segunda e terceira personagens, também retiradas do entulho, foram destinados lugares um grau acima do não usual: macabro mesmo. Elas estavam presas a uma corda, ou cordão (não dava para distinguir perfeitamente) e pendiam na parte superior, à direita e à esquerda da carroceria da caçamba. Eram idênticas à outra. Diria mesmo que eram tri gêmeas. Assemelhavam-se em tamanho, modelo, grau de conservação e destino. A corda presa ao pescoço frágil dos brinquedos e os movimentos bruscos e desconexos impunham às bonecas uma aparência de alguém que sofrera o processo de enforcamento e foi posto à exposição pública. Exposição ambulante, constrangedora, deplorável.
Triste saber que episódios como esses possam ocorrer sem causar nenhum impacto. No entanto, elas fizeram parte de uma cena de um teatro insólito, macabro, promovido e patrocinado pelos caminhões da limpeza pública de uma cidade cuja platéia (só para dar o tom de confirmação) se olhou, não viu; se viu, não esboçou reação: nem vaias, nem insultos, nem aplausos.
Mas quem era mesmo a plateia?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DIA DE CACHORRO MORTO


DIA DE CACHORRO MORTO

Maria Raimunda Almeida Silva*

Hoje, pela manhã, quando me dirigia ao trabalho, deparei-me com duas situações extremamente similares: dois animais mortos, sendo velados por crianças.
O primeiro animal era um cachorro de médio porte, de cor preta com traços de um vira-lata comum. Estava jogado junto ao meio-fio, semicoberto por um pano branco que não dava para saber se era uma toalha ou resto de qualquer tecido. Ali, naquele momento, era uma mortalha. Estava teso, meio de lado: morto. Junto ao corpo, alguma coisa parecida com sangue o qual já estava sendo disputado por formigas e moscas. Indiferentes aos insetos, três crianças, na parte superior do meio-fio, olhavam, curiosas, para o defunto. O semblante delas demonstrava um pouco de seriedade. Olhavam. Só olhavam. Provavelmente não se demorariam ali, visto que estavam, certamente, a caminho da escola, já que estavam fardadas.
Um pouco mais à frente (talvez uns duzentos metros), quando dobrei uma curva, percebi algo branco, meio volumoso, estendido no meio da rua. Foi só o tempo de desviar o carro, um pouco para a esquerda, para não esmagar o animal, que já se encontrava morto. Nessa edição do féretro, as crianças (cinco) estavam no passeio da casa mais próxima, olhando para o animal sem nenhuma tristeza aparente. A impressão que dava era de que elas não estavam satisfeitas somente com a morte do animal: eles queriam muito mais: o esmagamento. Num relance, tive quase a sensação de que o animal havia sido colocado ali para o sacrifício, pois quando o carro despontou na curva, houve uma movimentação da turminha, quase expectativa. O desvio do alvo provocou frustração.
Dois momentos, quase simultâneos, igualados pela morte; diferenciados pelos vivos!

* Professora da EMARC de Valença

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Família Cardoso e conterrâneos

Estão nessa foto:
Próspero Cardoso dos Santos; Antônio Cardoso: Narciso Cardoso; Aurelina (Ziu); Maria Cardoso (Lica); Barbosa; Dora; Léa Vasconcelos; Levi Vasconcelos; Raimunda; Nina e os filhos de Ziu e Lica(Ivaneuza; Luis; Edmundo; Uilson.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sombras de Natal





 
Era Natal! Ding, dong, ding, dong!!!
Muita risada... Alegria por nada?!
Fui investigar...Pereba também.
Pé atrás, ouvido na frente.
Até agora, ninguém!
Não sei por que Pereba latiu.
Parei. Parei parado!
Um vulto gordo passou,
Por trás de uma casa sumiu.
Pensei em tudo e em nada.
Menino na minha idade
Cheio de curiosidade
E sem nenhuma precaução
Resolve fazer e faz.
Pereba o fez  primeiro.
Entrando logo em ação.
E como se me chamasse
Para uma grande aventura
Parou, olhou para mim
Convite feito e aceito,
Duas vezes não pensei.
“Pernas pra que te quero?”
Lógico, não responderam.

* * * * * * * * * * * * * * * * *
Tinham donos, agora, as risadas.
Estavam lá estampadas
Em rostos de todas as idades.
Crianças grandes e pequenas
Cheias de felicidade!
Sorriam, sorriam muito.
Corriam envoltas em luzes,
Em doces notas musicais.
Todos muito protegidos
Por seus generosos pais

De repente, ... Ho! Ho! Ho!
Era a senha triunfal
Para a entrada do velhinho
Por uma porta lateral,
Trazendo consigo a magia
Dos presentes de Natal.

Era um ser vermelho e branco,
Gordo como na sombra,
Carregando um saco disforme
E ia se aproximando.
Tinha uma barba enorme

Toda feita de nuvem,
Misturada com algodão,
Presa a um rosto redondo
Transbordando de emoção.
.
As crianças o cercaram,
Na maior animação.
Olhavam mais para o saco
Que para o vermelho ancião

Presentes distribuídos...
Mudou toda a atenção
Daqueles seres reunidos
Naquele amplo salão.
Ficaram tão ocupados
Com os presentes recebidos
Que nem sequer perceberam
Que algo na sala mudou:
O bom velhinho cansado
Sem mais assédio e atenção
Tratou logo de sair
Pelo lugar que entrou.

Senti meus olhos nublarem
Senti até uma tontura
Senti uma dor no peito...
Senti que daquela alegria,
Não tinha nenhum direito.

“Desponguei” daquela janela
Com o corpo bem pesado,
Com o coração magoado
Com a alma d o l o r i d a!!
Como se estivesse ferida.

Pisei no rabo de Pereba
Que logo acordou da dormência,
Deu um grito fino, um latido.
Eu, meio sem paciência,
Ralhei com ele, coitado!

Levantamos os dois, como irmãos,
Pois amigos, mais ninguém.
Talvez, lá em Belém,
Lá longe, no outro mundo,
Alguém se interesse por mim,
Alguém que também foi assim,
Criança, menino, guri...
Ding, dong! Ding, dong! Ding...

Raimunda
Guaibim, 06.01.09.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

QUERER ALMA PARA SER HUMANO



Querer “alma” para viver como humano (se não se é) é uma empreitada que não está no âmbito das ações terrenas. A alma é essência. É sopro de vida no mais puro sentido que ela pode ter.
É possível, é provável e até justificável se ter um corpo sem alma. Difícil, talvez, seja visualizar-se uma imagem assim tão surreal. Certamente encontram-se por aí muitos corpos andantes, vazios, só corpos. Talvez almas de outros entes, até acompanhem esses zumbis de longe, a uma distância tempo-espacial suficiente para vê-los, sem interferências e sem querer ser parceiras desses seres mutilados.
Alma é energia, é luz, é raio, é equilíbrio, é junção, é união do visível com o invisível. É completude. Corpo só, é um corpo; corpo com alma é uma vida.

07.10.1999

terça-feira, 31 de março de 2009

Nostalgia


Nostalgia

Não é muito comum se sentir saudades do que nunca se possuiu. Mas é provável que de vez em quando algo estranho mexa com suas emoções, seus sentimentos.
Você acorda meio esquisito com a sensação de que alguma coisa vai lhe acontecer. Volta e meia o relógio é consultado. Nada. Você fica meio perplexo. O que teria acontecido? Você sente que alguma coisa está lhe faltando. Senta-se em algum lugar (...), olhos distantes, coração apertado... Se não disfarçar é capaz de uma lágrima teimosa lhe pegar de surpresa. Mas até que seria bom chorar um pouco. Quem sabe o peso nos olhos poderia diminuir?
Num relance você lembra de alguém, de uma paisagem, uma situação. Mas onde viu tudo isso? Onde?
As perguntas não diminuem o desejo de resolver a insatisfação.
Que bom se pudesse sair já desse estado “down”... Poder andar nas paisagens dos seus sonhos, morar ou passear (também com o personagem) em cabanas, praias, vales e toda uma construção onírica!
Saudade de sonhos? Por que não?
Sacuda a cabeça, balance o corpo como se estivesse se desvencilhando de um pesadelo...
Não, não é pesadelo. É nostalgia. É a suavidade de uma ausência frustrada pela inconstância do querer ser.
É saudade. Só saudade...

Raimunda
29.06.1995

segunda-feira, 30 de março de 2009

Harmonia


Buganvília meio idosa, galhos finos... alguns quase que totalmente sem folhas e flores; outros recobertos completamente! Flores, flores, folhas...
Num desses desnudos galhos, pousa um passarinho. O galho balança, balança, balança: é uma corda bamba de circo. O equilibrista mostra a maior classe: não se afeta, não se perturba. O seu equilíbrio não é só com o galho, é também com a natureza... Parece mais parte da planta do que um ser independente. Abre uma das asas, cutuca com o bico não sei o quê, belisca o pé, sacode-se, acomoda-se, imobiliza-se.
No momento em que controla sua submissa corda, voa novamente a um outro galho com tanta destreza que um artista laureado sentiria inveja.
A planta não parece incomodar-se, ao contrário, mostra-se dengosa, faceira. Facilita os movimentos coordenados dos seus galhos com seu parceiro de brincadeiras.
A harmonia vence... E tudo recomeça.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Vinte Minutos

Esperar a vida inteira é preciso;
Esperar vinte minutos, é desperdício;
Esperar filhos crescerem, é divinal.
Esperar um novo amor, nada mau.

Esperamos o dia raiar,
Esperamos a noite chegar,
Esperamos pelo Natal
Estando só ou com alguém.

Em tudo e por tudo,
Há a condição de esperar.

terça-feira, 24 de março de 2009

Fim de Linha

A linha da vida não é comum.
Ela é invisível, implacável.
O seu riscado só é perceptível
Quando seu usuário,
Num ato incrível,
Faz uso de tinta especial!
Então a linha pode tornar-se reta, curva, aberta,
Inclinada, numa corda bamba,
Desafiando o traçado original.
Uso de borracha? (...) Impossível!
Essa linha não admite remendos, consertos;
Concertos, quando em suas margens
Outras tantas são traçadas
Harmonicamente à geometria divinal!!
Réguas que obedecem a um inequívoco ditame,
Compasso perfeito em sua função de liame
Determinarão seus complementos:
Hidrocor, lápis de cor, esferográfica?
Superfície imprevisível e idômita,
Qual serpente sinuosa,
Traiçoeira e mortal
Sai do ponto de partida,
Chegando ao ponto final.
M. Raimunda
23/10/2007.
(Manhã chuvosa)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Etérea Viagem
Maria Raimunda

Quando eu morrer,
Tenham pena de mim:
Cubram meu rosto
E me deixem ...assim...

Quero ficar em paz
Sem ninguém me observando,
Em sufoco de lágrimas,
Me questionando.

Não quero ser medido,
Nem analisado.
Basta em tempo de vida
À exposição desmedida.
Não poder fugir.

Fechem bem os meus olhos,
Cruzem minhas inertes mãos.
Que tal me deixar limpinho?
Se quiser, chorem baixinho e
“Deixem em paz meu coração”!

Pois vou viajar,
Cruzar a amplidão,
Despido de bens,
Vazio de tudo.
Em busca do além.

Vou dar uma volta na Lua,
Brincar nos anéis e Saturno,
Me encontrar com as Três Marias,
Me perder na Via-Láctea...

Depois de noites e dias,
Medidos em ano-luz,
Quando o tédio ameaçar,
Volto ao Cruzeiro do Sul.
Abro meus braços gigantes,
Busco apoio aconchegante
Em suas estrelas azuis.
Estico-me todo... emoção,
Confundo-me com o infinito
À Terra envio meu grito
E viro constelação.

Cubram logo meu corpo
Com as flores que eu ganhei.
Agora não tem mais volta,
Deixem de lado a emoção,
Quero o meu passaporte
Para o Sul e para o Norte
Nas asas da imaginação.

FAZAG, 02 de março de 2009.

INÍCIO DE TARDE

Meio-dia, vontade louca de espairecer!
Desejo incontrolável de viver!
De buscar na turbulência
Insana do corre-corre diário,
a minha essência de ser!