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sábado, 12 de março de 2011

Falta Tudo


Falta amor,
Falta paixão,
Falta querer.
             Toda essa falta
Diminui o corpo, aniquila a alma, destrói o espírito.
O corpo nada mais é do que matéria.
Os movimentos são apenas movimentos.
O ser existe dissociado do sentimento.
Tudo fica muito cru, muito frio, muito mecânico.
A música não penetra mais nos ouvidos como um bálsamo.
O vento não toca mais a pele como uma carícia.
Os olhos não enxergam mais a simplicidade de uma gota d’água sobre uma folha, ou o bailar gracioso de um beija-flor.
O sorriso de uma criança é uma afronta para a tez sisuda.
O cumprimento de um amigo é um incômodo para a falta de tempo.
Em que se transformou uma pessoa assim?
Ainda é uma pessoa?

27.05.1995

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Amiga de Proust

                                Raimunda



Sou amiga de Proust.

Sou sua presença, ausência.

Sinto suas pulsações, seus bocejos, suas angústias quando precisa se separar de mim.

Eu o ouço, o vejo, o sinto.

Estou com ele nos galhos da azinheira, lendo escondido dos colegas.

Estou em seu olhar, na sua voz que não sai.

Estou no seu pensamento, juntando-se ao pensamento do seu autor preferido.

Me delicio com suas fugas, seus detalhes, minúcias.

Sou tão próxima dele que o que era amizade sincera, descompromissada, desinteressada, passou a ser, não sei quando, em que dia, um amor sereno, bonito, como um rio que cumpre seu destino de ser rio. Eu sou seu rio, sua ponte, sua água. Sou suas flores singelas e prediletas.

Sou seu lençol de cambraia bordado de tricô caprichado e bem cuidado.

Sou o carinho demonstrado por ele a objetos existentes em sua vida, seus lugares prediletos para descortinar, encontrar-se, familiarizar-se com seus personagens...

Eu sou cúmplice do seu respeito pelos grandes mestres.

Sou cúmplice do seu jeito de transformar em poesia, um simples sentar-se à mesa.

Sou ele quando está de posse do querer trilhar os atalhos saborosos para descobrir do outro lado da janela a simplicidade do jardineiro, a descrição (imagem viva) de um mosteiro com suas sombras, suas vidas, sua história.

Eu o acompanho com alegria, emoção, ansiedade.

Quero vê-lo voltar-se sempre para mim.

Não sou possessiva, apesar de tudo que disse;

Não sou ciumenta, apesar de querer tê-lo sempre comigo;

Não sou vaidosa, apesar de saber que sou sua melhor companhia.

Sou, em verdade, sua realização como menino, adolescente, homem.

Sei que não substituo sua alma no sentido estrito do termo, mas contribuo para que ele se eleve, se construa, se defina como responsável por seu caráter, seu ser, seu saber.


Saber,

Conhecer,

Viver,

Escolher...

Sou sua leitura.


Maio de 2003.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

NAVE AZUL

Raimunda



O mundo gira independente de mim.

A Terra redondeia duplamente e ignora-me.

Eu estática no meu conhecer.

Eu pequena no meu não-saber, encolhida...

ELA passeia ao redor do Sol: esquenta-se, esfria-se.

Cumpre um terrestre ritual: azula-se, prateia-se, doura-se, acinzenta-se...

Esnoba figurinos. Sua órbita é sua bússola.

Nave esférica: menina, moça, mulher.

Carrega em seus passeios o nosso viver; o meu não-viver.

Arrasta no seu magnetismo nossos sonhos, nossas dores...

Enquanto penso, enquanto durmo,

Ela vagueia, indiferente: tufões, furacões, terremotos...

Nada impede seus passeios.

Ela é bem mais ela.

Embalada em seus siderais, dança música hibernal.

Primavera em seus dias, suas tardes, suas noites. Só ela: nave redonda, azul, verde, colorida...íris.

Reduto de muitas vidas,

Mãe de muitas mortes...natural.

Ela vive: vida diferente.

Queria ter vida igual



Maio/2003

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Morte do Soneto

MORTE DO SONETO



                                  Raimunda

Forma fixa, prisioneira de caprichos

Em ti a arte se reduz

Não mais que dez mais quatro

Para encerrar sombra e luz



Linhas decassílabas e pronto!

O sentimento em número se transforma

Tens que caber nessa seqüência

Pois obedeces a uma fixa forma



És clássica, estás no passado

Com o ourives que te torna

Uma jóia declarada



Em ânsia de fechar-se em quatro

Nos limites da forma estagnada

Morre o soneto...sufocado.



Junho/ 2005

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Antítese do vaso Grego

Raimunda


Lá em Maragogipinho,

Perto do mar,

Juntinho ao manguezal,

Um bando de gente

A laborar:

Panelas, jarros, burrinhos,

Castiçal, porta-moeda.

Muitos vasos de barro

Escuros, sujos, suados...

Tomam forma nos pés,

Sofrem o atrito das mãos

Calosas, humildes, humanas [...]

Tornam-se vasos do Recôncavo

Artesanais, caxixis: vasos.

Úteis ou não:

Vasos.

(Este poema é parte do livro Rio de Letras de autores Valencianos.)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Livro

Amanhã, dia 09/04/2010, será lançado o livro Rio de Letras, escrito por vários autores valencianos. Será no Centro de Cultura, às 19:00h.
Faço parte dessa publicação na modalidade poesia. É minha estreia no mundo dos escritores. Espero publicar um individualmente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ardilosa Concha

Raimunda Almeida


Minha alma fechou-se em ardilosa concha,
Isolou-se em oceano, fraca e desnuda,
Afastou-se do comando firme, divinal,
Tornou-se cega, surda e muda.

Definhou em cabulosa reclusão,
Perdeu viveza e etéreo esplendor.
Nem vagar pode, pois estava presa
A uma tormentosa existência sem amor.

Mesmo enfraquecida, constatou a tempo
Quanta falta o sublime lhe fazia.
Então abriu devagarzinho a concha
E ouviu uma voz que lhe dizia:

“Alma é luz grandiosa, é estandarte
Medianeiro, ostensivo, revelador
Que nos tira da condição irracional
E nos torna semelhante ao criador.”

Valença, 14 de outubro de 2009.